António Rosa: a minha experiência da vida surda

Através do facebook recebemos esta mensagem que decidimos (após autorização do respectivo autor) publicar.

Aos dezoito meses, foi-me diagnosticada uma surdez bilateral profunda e este acontecimento tem condicionado, desde então, toda a minha vida, na família, com os amigos, na escola e no trabalho.
Desde tenra idade que iniciei um ciclo de consultas e exames que me obrigaram a deslocar-me, anualmente, a Lisboa, até aos dezoito anos de idade.
Aos três anos, entrei para o Jardim de Infância, na Escola Cônsul Dabney, na Horta.
Em 1982/1983, ainda não havia ensino especial, nesta ilha. Por este facto, e apesar de residir a 24Km da Horta, a minha mãe deslocava-se três vezes, por semana, à cidade, para que eu pudesse ter aulas de apoio com uma professora do ensino básico que tinha alguma experiência em trabalhar com crianças com necessidades educativas especiais, na área da surdez porque ela própria tinha um filho com o mesmo problema que eu.
Paralelamente ao apoio que me era dado, a minha mãe também recebia apoio na forma como comunicar comigo e como me ajudar a desenvolver a fala. Eram-me ensinados exercícios de terapia da fala que depois eu exercitava, em casa.
Desde logo foi posta de parte a possibilidade de utilizar a linguagem gestual, porque eu conseguia emitir alguns sons inteligíveis e a minha mãe e a professora que trabalhava comigo consideraram que a aprendizagem desta linguagem específica, só me iria afastar ainda mais do contacto/ convívio com os outros, quer familiares como amigos e conhecidos.
É necessário ter presente que em, 1982/1983, não havia a abertura e a sensibilidade que há hoje em dia para as pessoas com necessidades educativas especiais.
Frequentei o Jardim de Infância, integrado numa turma de ensino normal e tinha algumas horas de apoio individual, com exercícios específicos de terapia da fala.
No ano lectivo de 1985/1986 ingressei no 1º ano do ensino básico, integrado numa turma de ensino normal, nos Cedros, freguesia onde resido. Durante os quatro anos do 1º ciclo nunca beneficiei de nenhum apoio específico, por parte de nenhum profissional especializado (professor/ psicólogo). Trabalhava normalmente, com a professora do ensino básico que não fazia nenhuma adaptação especial às minhas dificuldades, excepto colocar-me na fila da frente, numa carteira perto da sua secretária, para facilitar a realização dos ditados.
Paralelamente ao trabalho da escola, que eu sempre realizei, durante o primeiro ciclo, em número e forma igual aos meus colegas da turma, realizava em casa muitos exercícios específicos que eram acompanhados pela minha mãe, indicados pela professora que já me tinha acompanhado nos meus primeiros anos de vida.
Na altura, para uma criança de seis anos, que não tem ainda consciência das suas limitações, este trabalho dobrado e repetido vezes sem conta, não era bem aceite e muitas vezes tive se ser obrigado a realizá-lo.
Após os quatro anos do 1º ciclo, ingressei no 5º ano de escolaridade integrado numa turma de ensino normal, sem qualquer apoio do ensino especial. Nesta fase dos meus estudos deixei de poder contar com o apoio directo da minha mãe e passei a ter algum apoio da minha irmã, apenas pontualmente, uma vez que esta estava ausente da ilha, para estudar.
Nunca beneficiei de aulas de apoio, mas neste ciclo de ensino os professores evidenciavam alguma atenção para com as minhas dificuldades e apoiavam-me, individualmente, nas aulas, sempre que era possível.
Consegui integrar-me nas actividades desenvolvidas e nas aulas ou nos momentos de avaliação, nunca beneficiei de qualquer especificidade, tendo em conta a minha deficiência.
Nesta nova etapa dos meus estudos comecei a sentir que as dificuldades se iam acentuando. Passei a beneficiar de aulas de apoio duas horas semanais, em Língua Portuguesa e Matemática e para, além disso, tinha apoio da minha irmã, em todas as disciplinas.
Começava-se, nesta altura, 1992/1993, a falar nas “necessidades educativas especiais e no ensino especial”, mas eu sempre estive integrado no ensino regular, apesar de ter ficado dispensado da segunda língua estrangeira (o francês). Era muito difícil, para mim, acompanhar o Inglês, nomeadamente na oralidade. Apesar disso, sempre fiz todos os trabalhos/testes iguais aos restantes alunos, em todas as disciplinas.
Sentia dificuldades em acompanhar a exposição das matérias, nas diferentes disciplinas, mas com o apoio das professoras e da minha irmã consegui concluir o 3º ciclo nos três anos previstos.
Frequentei, pela primeira vez o 10º ano de escolaridade, no ano lectivo de 1996/1997.
Foi uma mudança muito difícil para mim, tanto na adaptação às novas exigências, como na relação com a forma como os professores do secundário direccionavam as suas aulas.
Até ao 3º ciclo, apesar de estar integrado em turmas regulares e de ter feito sempre todos os trabalhos/testes em igualdade de circunstâncias com os meus colegas de turma, a verdade é que beneficiava de algum apoio individual nas aulas e conseguia ter uma maior proximidade com os professores, para tirar dúvidas e apontamentos. Para além disso, tinha apoio da minha irmã.
Com a entrada no ensino secundário e com todas as alterações psicológicas que esta fase da vida implica, comecei a sentir muitas dificuldades em acompanhar as aulas, em tirar apontamentos e, sobretudo, em participar nas aulas. A maioria dos professores dava as aulas, de forma expositiva, sem qualquer suporte escrito ou visual. Muitas vezes, a exposição da matéria era feita de costas para os alunos, o que me impedia de fazer a leitura labial, que utilizo sempre como suporte.
No ensino secundário, na altura, não havia atenção direccionada para alunos com necessidades educativas especiais, uma vez que já não era ensino obrigatório. Por seu lado os professores também não demonstraram sensibilidade para com as minhas dificuldades e nunca notei que houvesse nenhuma adaptação específica, neste nível de ensino, para me permitir compreender e perceber melhor os conteúdos abordados nas aulas.
Nesta fase dos estudos ainda tentei pedir dispensa da disciplina de inglês, que para mim era muito difícil acompanhar, uma vez que não se tratava se um inglês técnico, relacionado com a área de informática, que me interessava aprender, mas sim uma disciplina com muita interpretação e exploração de temas e ideias. Através da minha irmã, também foi solicitado a determinados professores que fizessem a exposição da matéria sempre voltados de frente para mim, de forma a possibilitar-me a leitura labial, ou ainda que facultassem cópia escrita das matérias que eram abordadas nas aulas, nomeadamente em aulas muito expositivas, como Português, Filosofia, Geografia, Inglês, História. Todavia estes apelos não foram tidos em consideração e a pouco e pouco fui-me desmotivando. Sentia muitas dificuldades em conseguir acompanhar a matéria, e pela primeira vez sentia-me verdadeiramente descriminado, pela negativa. O facto de não conseguir ouvir e perceber grande parte do que era exposto, nas aulas, impedindo-me de participar nas mesmas, começou a deixar-me frustrado e fui-me desmotivando e isolando do mundo, mesmo das pessoas que me eram mais próximas.
Esforçava-me por conseguir, mas a verdade é que as dificuldades eram muitas e pelo facto de não me ter inscrito na área de Humanísticas, para fugir das línguas, fez com que deixasse de contar com o apoio da minha irmã, em quase todas as disciplinas. Para além disso, neste nível de ensino já se exige dos alunos um domínio profundo e desenvolvido da linguagem oral e escrita aspecto que eu não dominava minimamente, tendo em conta a minha deficiência auditiva e, consequentemente, o vocabulário que utilizava e que compreendia.
Nas disciplinas de Português, Filosofia e História, por exemplo, não conseguia elaborar uma resposta de desenvolvimento, com uma organização lógica de ideias, conteúdos e riqueza de vocabulário, como era exigido pelos professores. Limitava-me a responder, dentro das minhas capacidades, com respostas objectivas, sucintas e curtas.
Nunca consegui compreender e muito menos dominar a sentido conotativo das palavras, os recursos estilísticos, nem tão pouco a abstracção de ideias e de sentido que é necessário dominar para uma dissertação em Filosofia, ou mesmo num comentário na disciplina de Português ou História, ao nível do ensino secundário. Jamais consegui perceber/interpretar poemas como Os Lusíadas, de Luís de Camões, ou de Bocage ou mesmo ser capaz de ler e contextualizar uma obra literária como Os Maias, numa época, e num contexto socioeconómico e político, que a mim nada me diziam. Não por desinteresse, mas porque este tipo de linguagem e de indicações socioculturais, não faziam parte da linguagem que me é possível compreender e dominar.
Durante três anos tentei completar o 10º e o 11º ano, mas deixei cadeiras por fazer e não consegui ultrapassar as dificuldades que me surgiam diariamente.
Desmotivei-me dos estudos. Não conseguia compreender/ouvir os assuntos que eram tratados nas aulas e não me sentia à vontade para participar, nas mesmas. Os meus colegas nunca tiveram nenhuma atitude de discriminação para comigo, mas na verdade percebia que nem eles, nem os professores percebiam muitas das intervenções que fazia e das dúvidas que tentava tirar. Estes foram os principias factores que me fizeram abandonar os estudos, quando tinha 18 anos. Sai com o diploma de 9º ano e frequência de algumas disciplinas de 10º e 11º.
Ainda procurei inscrever-me no ensino nocturno, mas a forma como as disciplinas, que completavam os blocos, estavam agrupadas não me atraia porque não queria voltar a ter de enfrentar as dificuldades já sentidas em algumas disciplinas, como o Português, o Inglês e a Filosofia.
Hoje, depois de ter abandonado os estudos, há doze anos, considero que talvez nunca tivesse desistido de estudar se houvesse, naquela altura, as facilidades e as oportunidades que existem actualmente.

Autor do texto: António Rosa

Vamos reflectir?

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Conto “As asas douradas”

Clique aqui para ler o conto:

Conto

Sugestões Metodológicas

Incluir tem vários sinónimos como abarcar, abraçar, abranger, acrescer, compreender, conter, somar, entre outros. Incluir significa fazer com que as pessoas com necessidades educativas especiais (NEE) façam parte da sociedade e que não tenham um papel de mero espectador mas também participante. Incluir socialmente significa dar oportunidade às pessoas com NEE de poderem ter uma vida sem qualquer tipo de coibições.

O estado tem um papel preponderante na mutação de mentalidades. Através das leis estabelecidas o dia-a-dia destes indivíduos poderá ser muito melhor. As necessidades são divergentes das pessoas sem qualquer tipo de deficiência. No entanto, cabe à sociedade e ao estado construir uma sociedade que seja equitativa nas oportunidades que oferece.

À medida que a sociedade se readapta as mentalidades vão-se tornando diferentes também. As mentalidades também se educam. Assim, o objectivo deste trabalho foi construir um instrumento que permitisse sensibilizar as crianças para a problemática das NEE no dia-a-dia. “As asas douradas” é um conto infantil que confronta a realidade versus o imaginário de uma menina que se tornou paralítica.

Os objectivos do conto são:

  1. Sensibilizar a população mais jovem para a noção das acessibilidades;
  2. Dotar a população mais jovem de espírito crítico no que diz respeito às acessibilidades;
  3. Promover os conhecimentos dos direitos civis à população mais jovem no que concerne às acessibilidades;
  4. Promover hábitos de leitura;
  5. Incutir valores de cidadania;
  6. Promover competências sociais

Autoras:

Ana Gonçalves

Cândida Santos

Ilustrador:

Vítor Silva

Semana Unidos pela Diferença

Integrado na semana Unidos pela Diferença, a UNECA Educação de Surdos da EBI de Arrifes irá promover, de 7 a 9 de Junho, o IV ciclo de cinema com o objectivo de sensibilizar a comunidade educativa para a problemática de surdez e para a inclusão da pessoa surda.

O IV Ciclo de Cinema está aberto a toda a comunidade educativa, pais e encarregados de educação.

Dia da Mãe

Trabalho realizado pela turma do 5º G dedicado às suas mães.

EBI de Arrifes – 2009/2010

Feliz dia da mãe!!!

Dia das Mães!

Dia das mães é todo dia!
É vida! É brilho! É felicidade no coração da gente!
É sempre alegria. Música animada.
Noite enluarada! Branco de paz! Dia lindo demais!
Dia das mães é todo dia!
Mãe é cheiro envolvente. Infância guardada
na memória que anima as lembranças presentes!
Mãe é mulher cativante.
Pedra preciosa guardada a sete chaves dentro do peito.
Dia das mães é todo dia!
Só elas têm o dom de fortalecer cada vez mais
os laços de amizade, prestando solidariedade.
Mãe é energia positiva que
está sempre presente dentro do coração da gente!
Mãe é o ser mais importante de nossas vidas!
Mãe é amiga, consola, dá colo, carinho,
aconselha, vibra e dá muita energia em todos
os momentos da nossa vida!
Dia das mães é todo dia!
E neste dia especial, quero dizer a minha mãe,
de forma bem sincera, que como o meu amor por ela,
não tem igual!
É transcendental!Primordial! Imortal!

de Antonio Marcos Pires
Rio de Janeiro – RJ

42 milhões de pessoas no mundo têm deficiência auditiva de moderada a profunda

“O uso descontrolado de fones de ouvido reduz o convívio social da criança em uma fase crucial para a construção da autoestima”, afirma Manoel de Nóbrega, médico especialista em otorrinolaringologia, mestre e doutor pela Universidade Federal de São Paulo, é professor afiliado do Departamento de Otorrinolaringologia da Unifesp. É responsável pelo Ambulatório de Deficiência Auditiva da Disciplina de Otorrinolaringologia Pediátrica da Unifesp/EPM,em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 24-02-2009.

Eis o artigo.

surdoA Organização Mundial da Saúde estima que 42 milhões de pessoas acima de três anos de idade são portadoras de algum tipo de deficiência auditiva, de moderada a profunda. Ainda segundo números da OMS (1994) e do Censo 2000 realizado pelo IBGE(Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a deficiência auditiva no Brasil ocupa o terceiro lugar entre todas as deficiências do país, representando 16,7% do total da população que tem algum tipo de deficiência.

Esse dado chama a atenção se considerarmos que ele representa 3% da população do país. Mas ele se torna alarmante por sabermos que é possível identificar o risco de deficiência auditiva em um bebê quando ainda está no útero da mãe. Ademais, existem meios de tratar a deficiência com sucesso se for diagnosticada precocemente e se o trabalho de reabilitação iniciar-se antes dos seis meses.

Desde 1998, as maternidades mantidas pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) realizam a triagem auditiva em todos os recém-nascidos, com indicadores de risco ou não, para que o diagnóstico precoce desencadeie todo o processo de reabilitação. Mesmo assim, a surdez infantil é um problema que atinge de 3 a 5 crianças em cada 1.000 nascidas no país -e grande parte dos casos chega aos consultórios pediátricos depois do terceiro ano de idade, segundo a Sociedade Brasileira de Otologia, dificultando o tratamento.

Mas além das barreiras sociais e culturais para a prevenção dos problemas auditivos, o mundo moderno nos presenteia com o agravante da surdez induzida pelo ruído, sendo que os causadores de perdas auditivas mais comuns estão no nosso dia-a-dia, como a máquina de cortar grama, ou em momentos de celebração, como o estouro de foguetes ou a música tocada em volume alto.

As consequências dos novos hábitos, em especial nas crianças, serão foco de uma conferência durante a 66ª edição do curso Nestlé de Atualização em Pediatria, que reunirá, em São Paulo, no mês de março, pediatras do país inteiro em busca de qualificação e conhecimento.

A exposição a sons ou a barulhos acima dos limites de tolerância pode lesar a orelha interna -as células da cóclea- e causar uma surdez irreversível. De acordo com a OMS, 10% da população mundial tem algum tipo de deficiência auditiva. A OMS considera que a perda auditiva relacionada ao ruído musical é a segunda maior causa de surdez no mundo.

Uma pesquisa encomendada pelo governo australiano descobriu que 25% dos usuários frequentes de MP3 estão mais expostos a perdas de audição. Outra pesquisa, inglesa, identificou que jovens de 18 a 24 anos estão mais suscetíveis que os adultos a exceder o limite de volume ideal.

O Centro de Medicina da Universidade do Minnesota, nos Estados Unidos, desenvolveu um estudo sobre os efeitos do som dos shows de rock no aparelho auditivo e recomendou o uso de protetores auriculares -não só para crianças mas também para a família inteira. Em tempos de Carnaval, essa parece ser uma boa ideia.

Os adeptos de celulares, iPods e MP3 que os utilizam por várias horas enquanto desenvolvem outra atividade estão expostos à restrição do foco de alerta e atenção. Consequentemente, apresentam maior risco de se envolver ou produzir acidentes, como atropelamentos ou a não-audição de uma sirene de incêndio.

Em Nova York, por exemplo, desde 2007 atravessar a rua ouvindo iPod pode render uma multa de US$ 100.
O que pode parecer raro ou exagerado torna-se rotineiro e crucial em países como Israel, quando se trata de sirenes de foguetes, por exemplo.

Outro aspecto extremamente relevante e ainda pouco valorizado é que o uso descontrolado de fones de ouvido reduz o convívio social e familiar da criança em uma fase crucial para a construção e o fortalecimento da sua personalidade e da sua autoestima.

Uma escola de Sydney, na Austrália, proibiu o uso de MP3 alegando que o acessório leva ao isolamento dos alunos. Por uma visão pessimista – ou, quem sabe, realista -, poderíamos enxergar esse cenário como a segunda chance ou a tentativa de nossas crianças deixarem de escutar. Depois os pais não poderão reclamar de que seus filhos não lhe dão ouvidos.

Retirado de:

http://integras.blogspot.com/2009/02/42-milhoes-de-pessoas-no-mundo-tem.html